A Educação Através do Afeto
Educação
12/07/2013

A Educação Através do Afeto

A educação, seus processos e os afetos

Escrito por: Gustavo Limeira

É importante que se saiba, antes de tudo, quem fala e de onde fala. Adianto, então, antes de apresentar-me, minha intenção absolutamente despretensiosa diante dos densos volumes de teoria pedagógica acumulados nestes muitos anos de história humana. Muito embora a força do título deste texto sugira um olhar amplo sobre coisas muito grandes (a educação, seus processos e os afetos), o que pretendo aqui é justamente o oposto. Quero olhar para o que não se nota, para o que a tão aguçada percepção humana tende a ignorar e tornar pequeno. Amar, no século XXI, é bem pequeno. O olhar que proponho, sim, esse é grande. Quero mais que um olho que analisa, descreve e depois vai assistir novela e dormir cedo. Eu quero o olhar que transforma.

                Pois bem, apresentadas as muitas intenções, que talvez sejam demais para tão pouco texto, apresento-me. Sou, antes de ser professor, um aluno em essência. Aprendi a aprender no sociointeracionismo de Vygotsky na última década do século passado e na primeira deste, e agora ando batendo cabeça na licenciatura em Letras da UFPB, habilitação em Língua Inglesa. Estou na sala de aula como professor da língua da rainha desde 2009, mais ou menos, e posso dizer que experimentei um bocadinho do que por aí se me ofereceu: escola de idiomas, educação infantil, fundamental, médio e cursinho pré-vestibular, por exemplo. Integro hoje o quadro da Escola Carrossel, e sou responsável por quatro turmas da educação infantil, com alunos de idade entre 3 e 5 anos. Meus xodós. Poderia estar-lhes falando diretamente da sala de justiça, d’uma sala no Centro de Educação da UFPB, de dentro do Departamento de Línguas Estrangeiras Modernas ou mesmo do meu quarto. No entanto me propus dissertar um pouco a respeito dos afetos e, prego-batido-ponta-virada, de tal assunto só se pode falar quando dentro de si. Pois: hoje vos falo de dentro de mim.

                Na temporada que passei num cursinho pré-vestibular da cidade, tive a chance de enfrentar alguns demônios. Eu, recém-ingresso numa universidade pública, tentava descobrir junto com uns poucos alunos as possíveis chaves que abririam aquela porta pela qual eu acabara de passar. O vestibular é um mistério que ainda demoraremos muito a desvendar, e cujas sombras se somam às sombras do próprio sistema educacional que hoje rege as muitas mentes que perambulam por este país. Não seria eu, logo eu, a resolver este enigma. Seria? Sonhar faz parte. Para além do dilema pessoal que enfrentei, e que dizia respeito aos meus valores e princípios profissionais e éticos quanto ao vestibular e a uma nebulosa ‘indústria’ de cursinhos que se prolifera por aí, me deparei com um desafio digno de Hércules: trabalhar um idioma detestado pelos alunos. Na mesma medida em que detestei a palavra ‘matemática’ quando dela eu mais precisava, meus alunos tremiam à simples menção de meu nome ou minha disciplina. Mal-acostumados com minha postura em sala, recebi muitos olhares tortos e caretas por demandar leitura em voz alta. Mas ora!,ali devia de haver algo errado. Se eu me encontrava diante de alunos que, a rigor, estariam em contato com aquele idioma no ambiente escolar por pelo menos oito anos, desde o início do fundamental II, qual a razão para que houvesse tanta resistência para com a língua e, por consequência, para comigo? Que engrenagem nesta máquina havia saído de lugar? Sim, porque num sistema que produz mais números que conhecimento, a analogia da máquina é tristemente precisa. Meu primeiro palpite para responder meu próprio questionamento era eu mesmo. Deveria haver em mim alguma falha, algum deslize que impedia o aprendizado de ocorrer. A transformação começou daí.

                Trabalhei duro nisso. Como eu estava lidando com adolescentes e adultos, busquei estabelecer uma relação mais natural. Talvez, com o discurso mais leve, as caretas e olhares tortos se abrandassem. Busquei fazer pontes entre situações do cotidiano da cidade e as questões resolvidas, apostei numa piada aqui, outra ali. O resultado foi razoavelmente satisfatório: já percebia algum calor na recepção de alguns alunos. No entanto, a maioria ainda se escondia atrás da cara feia. Meu raciocínio, se não estava errado, talvez estivesse incompleto.

Ampliei meu palpite. Será que havia naquelas criaturas algum tipo de trava ideológica? Haveria alguma barreira política que os impedisse de aprender o idioma que eu ensinava? Fui fundo nisso. Lembrei-me de mim, da minha história com essa língua que aprendi a amar a duras penas justamente por barreiras desta ordem. Preparei, pois, uma pequena fala que condensava minha perspectiva sobre este assunto. Falei de geopolítica, neurolinguística, sociocomunicação, música, internet, democracia e poesia. Falei de bandeiras e hinos, de palavras e espelhos. Falei de nação, identidade e ego. A resposta? Zero. Deitado na minha cama, pensei sobre a densidade do que havia dito, se eu por acaso teria errado a mão e estragado tudo. A conclusão é simples: diante de alunos que lidam (ou deveriam) com questões tão complexas quanto aquelas propostas por disciplinas como física e química, biologia e gramática, um pouco de reflexão não deveria ser assim tão inacessível. E se era, eu deveria tomar para mim o dever de trazê-la para dentro das paredes da escola. Tomei, levei e... nada. Que havia ali?

Estou iniciando o sexto parágrafo e talvez esteja distante para quem lê entender porque dediquei tanto tempo do texto falando de uma experiência numa instância relativamente distante daquela que vivenciamos no Carrossel. Vou fazer desse parágrafo, pois, um mero parêntesis recheado d’um questionamento, de forma a quebrar um pouco com a atitude excessivamente descritiva: esta distância, se há, quem a criou?

Para resolver o dilema de alcançar meus alunos do cursinho de forma satisfatória para mim e para eles, precisei olhar para trás. Entender o passado tem se mostrado uma ferramenta valiosa no gerenciamento deste presente. Por sorte ou ironia, para olharmos ao passado é comum fecharmos os olhos. É que o passado mora do lado de dentro. Pois: olhei para o passado. Tentei reconstruir minha história com a língua inglesa e encontrar nela, quem sabe, a resposta. Lá dentro vi que não fui um aluno muito diferente dos demais. Muito bom no que era bom, muito ruim no que era ruim. Nunca fui de meios-termos. E me lembrei de um professor marcante no fundamental. Um homem alto, os olhos azuis muito vivos, a fala perceptivelmente estrangeira. Era holandês, trazia na bagagem seis línguas em que era fluente e bastante honestidade na fala. No início, o impacto era tão forte que não me permitia racionalizar muito. Porém não tardou até que eu pudesse dizer que queria ser como ele quando crescesse. Eu olho hoje para aquela criança no meu ontem e tento medir o quão significativa foi aquela figura de olhos muito claros em minha história. E concluo: não há medida que possa representar tal dado. Não há. Olhar para trás pode ser doloroso, mas liberta. E eu lembrei d’uma outra figura. Dessa vez baixinha, gordinha, o cabelo loiro sobre os olhos e dentes que sorriam o tempo todo. Minha primeira professora de inglês fora da escola comum foi também quem me mostrou que havia em mim uma batina de professor. Indicou-me para uma vaga, coisa que não esqueço. Coisa que não tem preço. Coisa.

Mas calma lá!,de repente este que vos fala ficou emotivo. Creio que seja inevitável, uma vez que quero tratar de afetos. Não posso, porém, perder o foco. Falávamos de olhar para trás em busca de respostas. Não foi difícil somar minhas experiências e entender o logaritmo que eu buscava. A resposta não estava no cursinho – nem nunca vai estar, é como vejo. A resposta está na educação infantil. E vamos lá, dessa vez dedicarei um parágrafo só para ela.

Neste parágrafo eu poderia falar de Freud. O pai da psicanálise nos fala de processo transferencial, algo sobre o qual vale a pena ler e entender. No entanto, não sou da psicologia e correria o risco de cair em contradições e cometer atentados contra a teoria, naturais de quem pouco leu a respeito. Poderia falar de Piaget. Este suíço traz à tona uma questão central na pedagogia: ‘como conhecemos o que conhecemos?’. Eu poderia ainda falar-lhes de Freire, que traz para o debate a questão da autonomia e da educação como ferramenta de libertação do indivíduo. Prefiro falar-lhes, no entanto, do que tenho ouvido de mães e pais de alunos meus e de minhas colegas professoras da educação infantil. ‘Meu filho lhe adora’ são quatro palavras que impregnam de sentido o trabalho que desenvolvemos. Quando sou abordado por uma mãe que me fala com sorriso nos olhos sobre como sou tópico das conversas de seu filho, quando minhas colegas me falam sobre como os alunos fervilham a minha simples presença, quando recebo um abraço de um ex-aluno...  são os momentos de verdadeira missão cumprida. E estas últimas quatro linhas pareceram excessivamente concentradas na minha figura. Porém palavras não traduzem a paz quente do olho de uma criança quando vê alguém por quem preza. E, tenho certeza, se é um pai ou mãe de aluno que me lê neste momento, sabe exatamente do que estou falando. Pelos rápidos momentos em que, por acaso ou por descuido, me deixo visível aos pequenos quando atravesso um corredor da escola e eles irrompem em gritos de meu nome em meio a uma frase compenetrada da professor é que confesso: não é inglês que quero ensinar aos seus filhos. É que me interessa muito pouco se eles aprenderão comigo a contar de one a ten ou a dizer-me as cores de suas fardas. ‘É preciso amar’, eu responderia a Piaget, ‘e é preciso aprender a amar para conhecer’. A noção errônea de que o objetivo final da educação básica deva ser o simples ingresso do indivíduo no ensino superior tem gerado monstros. E que escolha de palavra, hein?, ‘monstros’. Nossos xodós não gostam dessa palavra. Mas ela está no lugar certo. O vestibular é um monstro. O escanteio do conteúdo em detrimento de improváveis técnicas de resolução de questões de múltipla-escolha é um monstro. As cabeças desinteressadas – e, por consequência, desinteressantes - de alunos de ensino médio são pequenos monstrinhos. E que não tem outro destino a não ser se afogar no ensino superior. Este, ah, este não perdoa.

Antes de iniciar o manuseio do conteúdo, cantar cantigas de trabalho ou bombardeá-los de questionamentos a cerca do que nos cerca, sempre os escuto. Contam-me dos seus últimos dias, misturam lembranças e planos, narram visitas aos shoppings ou zoológicos ou familiares distantes. Falam-me de desenhos animados que existem e que não existem. Riem e choram, sentem saudades. Eu sorrio e os falo também o quanto posso. E ali, justamente ali, nasce um elo de cumplicidade que não se abre com faca. Meus caros, eu não prometo pronúncia perfeita. Prometo que faço – e que aqui se faz! – a minha parte na construção de mais-que um aluno raso de ensino médio, incapaz de se identificar com os conteúdos ensinados. Somos engenheiros de aprendizes. E a argamassa é o afeto.

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